Véspera

Entrem no clima d’A Fita com este conto de Diego Astaurete.

Gravando.

O tempo começa a correr no canto inferior direito da tela de uma filmadora qualquer, em foco percebe-se um corredor de paredes azuladas e ovais, sua textura muito semelhante a uma borracha úmida. A iluminação é pálida e parece clarear o suficiente apenas para que o operador da câmera caminhe a passos lentos na única direção disponível em meio ao estranho corredor que se estende até um escuro canto qualquer.

Uma luz vai de encontro com a escuridão, e de repente todo o ambiente a frente da filmadora está tomado pelo tom esverdeado emitido pela visão noturna do aparelho, que acaba revelando um lance de escadas preenchida de cabos soltos que chicoteiam a escuridão espalhando suas faíscas para todos os lados. Um grito ecoa do pé da escadaria até chegar aos ouvidos do misterioso individuo, fazendo com que ele perca o foco por um momento enquanto treme de nervosismo e preocupação, mas lentamente vai descendo para ver se alguém precisa de ajuda, e já ao longe da pra perceber que existem capsulas transparentes e embaçadas presas ao chão enevoado do recinto, e de todas elas ecoam pedidos de socorro e gritos de agonia.

Por um momento a câmera vai ao chão, e na sua frente o seu operador está de joelhos sob a névoa vomitando, ele tenta cobrir o nariz e se recompor, dando a impressão que o cheiro ali é desagradável ao ponto de deixar qualquer um inconsciente. Finalmente quando a filmadora volta para sua mão ele esfrega a parte superior de uma das capsulas, e seu interior é preenchido pela forte luz esverdeada que revela um jovem por volta dos 16 anos, ele retorna o olhar para a câmera e começa a socar a capsula por dentro querendo sair, revelando um furo em cada uma das suas mãos, mas algo fez com que a câmera caísse e desligasse a visão noturna, e pela presença de um vulto diante dela deu a entender que seu operador também está no chão.

Apesar da filmadora não emitir mais nenhuma imagem seu áudio ainda estava funcionando, e a seguinte mensagem de dois indivíduos conversando foi captada:

– Não sei como ele escapou, deve ter sido descuido de algum dos médicos, vou verificar com o pessoal da segurança.

– É bom que isso não volte a ocorrer, ele já tem 33 anos e a páscoa está chegando, mas ei, de onde veio essa câmera? Destrói essa merda.

– Relaxa, porque daqui ela não vai sair.

– Se o…vai ficar feio…nós, …sabe disso!

Esses foram os últimos momentos da gravação de uma fita de vídeo encontrada dentro das ruínas de uma velha casa no Vaticano.

Categorias: Minicontos

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